Entrevista de emprego

Tinha ainda mais duas entrevistas até dar por concluída a semana. Na sua inocência estava convencida que esta era a parte mais dura do todo que tinha pela frente. Ninguém corrige este tipo de optimismos, e ainda bem. É como correr uma maratona, se a pessoa sentir ao principio a dor sentida a meio da corrida perde a coragem para se iniciar. Faltava um quarto de hora para a hora marcada quando se apresentou na recepção. Fê-lo de uma maneira informal pois não se sentia confortável com formalismos “Ola sou a Rita. Tenho uma entrevista agora às 9.” Escusado seria dizer que estava nervosa, apesar de lhe correrem sempre bem as entrevistas, sem nunca as preparar como faziam alguns dos outros candidatos às mesmas vagas. Sabia-o que preparavam as entrevistas porque os via com papeis que reliam enquanto ainda havia tempo. Ela não preparava nada, tinha até orgulho nisso. Admirava as pessoas que não se esforçavam principalmente quando era de esperar que se esforçassem. Na sala de espera só lá estava ela. Por detrás de uma porta ouviam-se vozes de três pessoas. Ia estar em desvantagem numérica. Finalmente ouviram-se as despedidas, e o candidato saiu sozinho. Rita olhou-o tentando adivinhar qualquer coisa acerca do que a esperava. Era um rapaz novo mas que já vestia um fato com uma gravata. Rita estava com umas calças beje, uma t-shirt preta da moda, uns ténis all-star e um colar de prata que quase nunca tirava do pescoço. Quando a recepcionista disse-lhe que podia entrar ela bateu com as mãos nos joelhos como se este choque desse impulso para se levantar.

Rita era sem duvida uma rapariga simpática e descontraída. Podia não responder o que se pretendia ouvir, mas respondia sempre o que tinha de responder. Esta característica, quando usada de forma inteligente, é cómica. Rita fazia os outros rir com a sua espontaneidade. Que por sua vez quebravam o expectável. Neste aspecto Rita não tinha nada de inocente. Sabia como provocar o riso. Tinha haver com os papelinhos. Nas entrevistas não é suposto dizer o que se pensa durante a entrevista. O que é esperado do candidato é que estude o que acha que deve estudar, escreva num papel e depois pronuncia as suas falas no momento certo. Está era a mecânica esperada. Ao dizer o que pensava (nunca era exactamente o que pensava, não podia ser) quebrava a mecânica e (nem sempre assim era) encontrava o riso. Mas não era um palhaço. Um palhaço não consegue arranjar um emprego, e Rita queria um emprego ao ponto de pensar que precisava de um. Talvez precisasse mesmo, quem sou eu para o dizer.

O final da entrevista estava reservado para que os entrevistadores fizessem uma breve apresentação acerca do salário. Um deles empurrou uma folha quase em branco para o centro da mesa, de maneira a ficar mais perto do olhar da candidata, e foi acompanhando a sua apresentação com rabiscos ilustrativos: “O vencimento é processado no ultimo dia de cada mês. São 945 euros por mês, brutos, que podem chegar aos 1200, também brutos. O horário é o horário normal das nove às oito… às seis. Folga aos fins de semana… que mais posso dizer…” Na sua inocência Rita perguntou porque eram 945 euros. “Como assim porquê?” Era uma pergunta difícil, e ainda por cima não teve piada. Foi até ofensivo, porque mil euros por mês? Quem é que não queria receber mil euros por mês. É um ordenado muito bom, é unânime, nem é preciso pensar mais no assunto. Rita despediu-se com um aperto de mão e a promessa de uma chamada caso corra tudo bem. Despediu-se da recepcionista feliz por poder ir agora comer, estava com fome, mas sem saber como é que tinham desencantado os 945 euros brutos. Não se pode ter tudo, ter um apetite às horas certas já não é nada mau.

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