Dois problemas

Estou convencido que os gatos não vêm as mesmas coisa que eu vejo. É verdade que não sei o que qualquer outro par de olhos vê, só sei aquilo que os meus vêm. Por enquanto. Mas parece-me que nós, as pessoas, vêm todos mais ou menos as mesmas coisas. Há quem diga que vê coisas que mais ninguém vê, como extra-terrestres ou espíritos. Provavelmente é mentira. O que não quer dizer que quem afirme convictamente que vê o que mais ninguém vê esteja a mentir propositadamente. Todos temos uma certa necessidade de ser especial, manifestamente único. Isto por vezes distorce-nos a visão. Os gatos. Sempre que me apanho parado somente a olhar numa direcção sem saber porquê, reprimo-me. Fico até preocupado com a maneira como dou por mim a desperdiçar tempo. Quem tem gatos, ou observa os que por aí andam sem dono, os selvagens, sabe que esta prática é comum entre a sua espécie. Os gatos são capazes de estar sentados nas suas quatro patas a contemplar o infinito como se o tempo estivesse parado. A ciência já deve ter encontrado uma bem fundada explicação. Talvez diga que nestes momentos o cérebro do gato aproveita para dormir. Só a parte direita, enquanto a esquerda permanece de vigília para possíveis ataques de predadores ancestrais. Eu respeito, como respeito quase tudo, mas tenho ideias diferentes. Posso-as ter porque quero, e porque a ciência tem tantas respostas para as grandes questões como qualquer outra coisa. Quais são as grandes questões? Não interessa, mas sei que a ciência não as respostas correspondentes. Os gatos vêm personagens de ficção. Aquelas que depois ganham uma representação dada por nós, a espécie humana. Isto levanta um problema, mais um, por isso é que eu avisei que eram dois. Se os gatos os vêm, eles não são personagens de ficção mas sim pessoas reais, como nós, que não os vemos, por estarmos em realidades diferentes. E se eles são reias, nós não os podemos inventar. Se inventarmos, inventamos outra coisa, que não é um personagem de ficção, e por isso não serve para o fim pretendido.

No outro dia estava a escrever uma personagem que chamei Rita. Pareceu-me ser uma Rita, e pareceu-me que tinha o cabelo vermelho. De resto não sabia mais, por isso comecei a inventar. Queria que ela fosse nova, vivesse com o pai, e tivesse o sonho de ser uma comediante. Peguei nela e meti-a a fazer coisas, em situações que conheço e que pareciam-me ser interessantes para ver o que ele fazia. Devo dizer que saiu-se bem, e revelou-me algumas das suas características sem que eu as tivesse de inventar. Estava satisfeito com a sua prestação mas uma coisa são estes testes, outra coisa é uma história. Para a meter na história tinha de saber se ela era real. Tinha de saber se ela existia. Precisava de um gato emprestado, por alguns dias. Só por um curto período de tempo. Não tenho nem nunca tive um gato porque não seria justo para o animal estar constantemente a tropeçar nas minhas personagens. E as minhas personagens se calhar não gostam de ter um gato a observar os seus ocultos comportamentos. Mas por um alguns dias talvez pudesse descobrir alguma coisa.

Sou algo tímido, não me agrada incomodar os vizinhos ainda por mais com estas coisas. Por isso raptei o gato do segundo esquerdo. O gato do segundo esquerdo é um vadio, palavras dos donos, e por isso menos ofensivas. Anda pelas escadas do prédio, mia para as portas, e quando estas se abrem entra sem pensar nas consequências. Num destes dia esperei até ouvir o miar, já com tudo preparado, comida de gato, seca e húmida, e uma caixa cheia de areia, para uma estadia de alguns dias. Ele miou, eu abri a porta à primeira, e ficou feito o check in. No primeiro dia não aconteceu nada. Ele ainda se estava acostumar à nova casa, não tinha tempo para a ficção. No segundo dia, felizmente porque já não podia ter o gato lá em casa, faço imensa alergia, ele parou no meio da cozinha e ficou só a olhar. Olhei para o mesmo sitio, esfreguei e apertei os músculos das pálpebras, num esforço de ver mais além. Ficamos assim durante algum tempo até inesperadamente o gato dar um salto e desatar a correr pelo corredor fora até ao outro extremo da casa. Fiquei sozinho com Rita. Perguntei “és tu Rita?”. Depois andei o resto do dia à procura do gato, que se tinha enfiado debaixo da cama e não queria sair dali, quase como protesto. Quando finalmente saiu, agarrei-o e deixei-o nas escadas. Uma experiência falhada. Agora que a analiso à distancia acho que se tivesse ido à farmácia comprar um anti-histamínico tinha conseguido levar a experiência com mais tempo e tranquilidade. De qualquer maneira passei a acreditar que a Rita não gosta de gatos.

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