Fábrica de mealheiros

Numa sala de reuniões, daquelas com mesas desnecessariamente grandes ao centro, e rodeadas por pessoas tão idênticas que se confundem, um homem que parecia liderar as operações parecia pensar no que ia dizer. Olhava o horizonte, com o cotovelo em cima da mesa, o queixo em cima da palma da mão, para assim estabilizar o cérebro promovendo um melhor desempenho ao pensamento. Assim que surgiu uma oportunidade, não interrompeu ninguém, dando às suas tão prometedoras palavras um começo civilizado mas pouco cinematográfico. Disse “Só não percebo porque fica ao critério das pessoas escolher onde vão gastar o dinheiro que poupam? Querem dar-lhes trabalho?” A sugestão de dar trabalho ao cliente que paga para não o ter foi cómica. Um paradoxo interessante que provocaria o riso mesmo se não tivesse sido quem foi o autor da piada. O homem esperou que o riso abandonasse a sala, pelas paredes e pelo tecto, e continuou satisfeito, mas não muito satisfeito. Não queria que pensassem que o sucesso da piada tinha sido simplesmente por sorte, mas também não queria passar a ideia que o que disse era uma anedota. Continuou “Este produto, mealheiros inteligentes, porque não escrevemos no produto para que serve? Por exemplo este” e pega no que esteve sempre na sua frente “diz aqui: poupar para… Para quê? Porque não escrevermos logo para o que é que se poupa? Não me parece boa ideia deixar uma decisão destas para o nosso cliente.” Depois calou-se até alguém terminar de verbalizar o seu raciocínio. Alguém completou dizendo que se ia fazer vários modelos de mealheiros. Cada um estampado com um texto diferente. O inicio seria sempre o mesmo: “Poupar para” e o resto variava. Podia ser para uns sapatos, para uma viagem, para um jantar, para uma televisão nova, ou um sofá novo, isto depois logo se via com o departamento de Marketing. O importante era sermos nós a dizer o que é que as pessoas querem. Porque é que vivem da maneira que vivem, dia após dia, cinco dias por semana, e dois para fazer outras coisas. Podemos dizer porque estamos em condições de o fazer, esta mesa gigante no meio desta sala num escritório a cem metros do chão é a prova que estamos em condições de o fazer. Podemos falhar para uma ou duas almas perdidas, que perderam ou nunca tiveram em contacto com a civilização. Mas o resto acertamos, acertamos sempre. Queremos acertar porque existe outras pessoas a tentar acertar, e torna-se um jogo. Quem não gosta de brincar? Tudo isto é possível porque toda a gente gosta de brincar. A reunião terminou com o bater de palmas do homem. Quando estavam todos já a chegar à porta o homem disse ainda para fazerem os mealheiros mais pequenos, quase que se ia esquecendo, mas foi a tempo, é para isso que o pagam.

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