E os palhaços não sabem rir

Faz exactamente agora uma semana que por distracção derrubei a minha caneca preferida atirando-a ao chão e partindo-a em pelo menos cinco partes, sem contar com os estilhaços. Lembro-me de como fiquei angustiado. Nestes momentos que nos chegam com a desagradável lembrança da irreversibilidade do tempo, resta-nos o esforço de com o tempo que nos resta reverter o estrago que foi feito. Nos sonhos é fácil, basta acordar, mudar o lado do disco e verificar para nosso alivio que deste lado não está riscado. Quando uma coisa se parte mesmo, e não foi um sonho, é preciso agir. É-nos exigido alguma coisa, nem que seja ignorar o acidente e afastarmo-nos da desgraça com toda a resignação que podemos arranjar. Alguém depois varra o que ficou caído. Ponderei colar as partes da caneca, reconstituindo-a. Ideia que foi prontamente abandonada pelo trabalho que me iria dar. Depois já quando empurrava para uma pá aquilo que um dia fora a minha caneca preferida, voltei a ponderar a ideia. Ter uma caneca refeita com cola, voltando a ser quase uma caneca, depois de ter deixado de o ser. Uma caneca que nem sempre foi uma caneca. Uma caneca que pensou que deixara de ser uma caneca para sempre, para voltar a sê-lo por força da cola. Achei isto de alguma maneira poético. Voltei a rejeitar a ideia devido ao trabalho que me ia dar. A experiência diz-me que a poesia é inesgotável, e surge sem esforço. Pode-se tentar materializa-la com trabalho esforço e dedicação, mas neste caso achei que o melhor era deixá-la ir, como deixei ir a minha caneca preferida para o lixo. Não me arrependo.

Hoje acho tudo isto cómico. A contracção dos meus músculos faciais quando derrubei a caneca, a minha distracção de a deixar na borda da mesa, a sonoridade da caneca a partir-se no chão desrespeitadora da hora tardia que se fazia, a velocidade com que tudo aconteceu, até a própria caneca a partir-se. Uma caneca a partir-se é cómico. Se fosse um vaso da vista alegre, uma peça única avaliada em meio milhão de euros, era ainda mais cómico. Tinha era de se esperar mais do que uma semana, quem sabe alguns anos, para o cómico se revelar. Mas o riso, desde que se tenha algum sentido de humor, o riso vem sempre a caminho. Para nos lembrar que a culpa foi nossa. Não devíamos ter pensado que as coisas são eternas nas suas formas actuais. Este foi o primeiro erro, o segundo foi atribuir significado às coisas. Foi ridículo da nossa parte. Felizmente podemos rir agora. Os palhaços partem a loiça toda porque não se podem rir. Os palhaços não se riem. Para um palhaço nada tem significado, nada pode ter graça. Os palhaços não podem ser civilizados, até porque aqueles sapatos não são bons para andar na cidade ou no campo. Primeiro rimo-nos dos palhaços, depois temos medo dos palhaços, até nos tornarmos palhaços. Gente desumanizada, barulhenta, desrespeitadora, para quem nada importa, nada é real, nada tem significado, como num sonho. Da mesma maneira que não podemos recuar no tempo, também não podemos evitar o seu avanço. E por isso está tudo bem, estou só um bocado pessimista porque parti a minha caneca preferida.

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