Reclamação

Parecia um fiscal a inspeccionar as carruagens do comboio, uma depois da outra, começando numa ponta, onde inspeccionava tanto a parte de frente como as laterais, e de seguida a adjacente, inspeccionando só as laterais. Percorreu todas as carruagens por fora até à traseira do comboio. Repetiu depois em sentido inverso, com a mesma presa, porque tinha um comboio para apanhar, que podia ser ou não ser aquele, que podia começar a deslizar para a esquerda ou para a direita. Estava num momento decisivo, tinha de tomar uma decisão que ia definir o seu destino, e nem a porcaria do número de identificação do comboio conseguia encontrar. A única coisa que sabia, era que o comboio que queria, aquele que lhe dava mais jeito, saia às duas e quarenta e cinco. Nem sabia que horas eram porque parar para ver as horas era um desperdício desnecessário de tempo. Por acaso, porque não era costume naquela estação, um dos funcionários da ferroviária, com crachá e camisola de malha com as coras a condizer com o logótipo, surgiu de uma porta tão bem fechada que parecia nem ser mais uma porta mas antes uma continuação da parede. Com uma esperança a crescer dentro dele caminhou até junto do homem, não queria correr porque parecia-lhe que não era caso para tanto. Preferiu guardar a corrida para quando fosse totalmente necessário. Se a forçasse agora (e não era preciso forçar muito, antes pelo contrário) podia ficar sem opções para exprimir adequadamente a sua situação em momentos de maior aflição. Porque pensava que havia sempre momento de maior aflição. Mesmo que nunca chegassem, eram ser possíveis, e por isso devia de estar precavido. Em último caso podia sempre correr com os braços no ar enquanto gritava em agudos “valha-me Deus! Valha-me Deus”. Como não queria chegar a este ponto, tinha de racionalizar bem as suas acções. Começou por cumprimentar o funcionário com um sorriso e foi directo ao assunto “Sabe-me dizer por favor em que linha sai o comboio para Paúl?” O sorriso e a calma com que expôs a questão mostravam como era antes de qualquer outra coisa um ser civilizado, capaz de não ceder aos seus instintos perante a primeira adversidade. O funcionário da ferroviária, que ficou surpreendido, como quem não estivesse à espera de ser incomodado. Ficou olhar para longe como a pensar “merda, já descobriram que há aqui uma porta, nunca mais vou poder sair por aqui sem ser incomodado”. Finalmente respondeu “linha três”. Aquela resposta e o tempo que demorou não mereciam um agradecimento, mesmo assim, para não deixar duvidas a respeito dos seus elevados valores cívicos, enquanto se afastava deixou um obrigado. Trocou o caminhar com presa pela corrida quando ouviu o funcionário gritar ainda agarrado à porta “é melhor correr que o comboio vai partir.” Correu equilibrando a mala que tentava desequilibra-lo a cada passada, e entrou no comboio mesmo a tempo pois assim que a porta se fechou atrás dele o comboio arrancou.

Sentou-se aliviado, orgulhoso apesar da corrida, que era desculpável pois fora totalmente necessária. O revisor surgiu inesperadamente, como se também ele tivesse saído de uma porta secreta. Depois de inspeccionar o bilhete que recebeu prontamente do recém chegado declarou “este bilhete não é para este comboio.” Não era uma situação nova, não pertencer a determinado lugar. Mas assim de uma maneira tão clara como aquela, e confrontado com uma autoridade capaz de punir. Se antes a sua situação era complicada mas ainda assim tudo se podia resolver. Agora parecia não existir solução, estava tudo perdido. Sentiu como que um choque, e por isso não respondeu, ficou à espera do que ia acontecer depois daquele choque. Ouviu um apito, podia ser da travagem do comboio, ou um apito interior provocado pelo choque semelhante ao da travagem de um comboio. A carruagem não ia cheia, tinha algumas pessoas, espalhadas desordenadamente pelas cadeira. Todas elas deviam estar na expectativa do que se ia passar, como espectadores de uma peça que não sabem a quem vai pertencer a fala seguinte. O revisor não sabia o que fazer, e como isto o deixava numa situação embaraçosa, fingiu que estava só a espera da atitude correcta por parte do infractor. Isto deixava o infractor numa situação desconfortável, mas que podia ser aproveitada a seu favor. “Se ele está à espera que seja eu a resolver esta situação” pensou ele “então vou escolher aquilo que mais me beneficia”. O revisor que esteve apoiado só numa perna este tempo todo, trocou de perna para ganhar algum tempo, e para deixar mais claro ainda que estava à espera de uma solução. “o seu colega disse-me que este era o comboio certo. Peço imensa desculpa, mas deve compreender como esta situação é para mim um enorme inconveniente. De qualquer maneira estou disponível para sair na próxima estação.” A solução não pareceu agradar ao revisor, que trocou mais uma vez de perna, e continuou expectante, reforçando o olhar acusador e um pouco satisfeito com tudo aquilo. Parecia até que esperava por alguma manifestação dos restantes passageiros que lhe desse força na sua indignação. “Se ele não diz nada não vou ser eu a falar outra vez. Disso tudo de forma correcta e clara, não fiz nada de errado, sou um passageiro que pagou pelo seu bilhete. Se alguém deve um pedido de desculpas a alguém são eles a mim.” O revisor soltou um suspiro puxou do seu aparelho que parecia um telemóvel mas dos antigos, pelo seu tamanho, e começou como que à procura de qualquer coisa. Depois disse sem apresentar justificação alguma “são 12 euros.”

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